Diluculum e Ocaso
- Ainda consigo lembrar do meu rosto antigo, agora eu sou o antigo.
- Pois é, meu amigo. Acho que estamos ficando velhos.
- Ele é covarde.
- Quem?
- O tempo. O tempo é covarde.
- Por que falas isso, meu bom?
- Ele não nos dá vida, mas nos faz perceber a mesma.
- Eu acho que ele é nosso amigo. Nos assusta com a idéia de que cada instante é único para nos fazer valorizar a vida.
- Penso que não. Quando somos jovens ele nos faz sentir o desejo de sermos quem não somos, mas quando chegamos aqui, onde estamos, ele nos faz sentir saudade de quem fomos um dia.
- E de que você sente falta? Do trabalho? Do estresse? Eu gosto muito mais agora. Não trabalho, mas tenho meu dinheirinho da aposentadoria, tenho quem faça as coisas para e por mim, tenho quem se preocupe comigo, meus filhos todos cresceram e agora são bem sucedidos, têm suas próprias famílias, tenho minha velhinha em casa… Eu acho que não podia ter vida melhor.
- É, eu sinto falta do estresse, da falta de dinheiro, das brigas em casa, da incerteza do futuro, do medo de não ser realizado profissional e pessoalmente. É isso que é a vida, essa confusão toda. Você já parou pra pensar onde estamos nós agora, Mário?
- Estamos vivendo, Baltazar, sem problemas. Não é isso o motivo de lutarmos a vida inteira? Esse sossego? A melhor idade?
- A melhor idade? Estar morrendo foi a pior coisa que me aconteceu, a morte não, mas estar morrendo sim. Eu agora me sinto inútil. Há coisas que eu queria fazer, mas meus ossos ou lucidez não me deixam mais. Eu nunca saltei de pára-quedas, nunca quebrei uma perna andando de esqueite, nunca fugi de casa para acampar com os amigos num terreno longe da cidade.
- Velho, você é louco? [risos]. Toma seu café e lê teu jornal em paz, o teu tempo de fazer isso já passou.
- Aí que tá, o tempo me deixou pra trás. O tempo veio antes de mim e continua jovem, e eu agora sou chamado de velho.
- Baltazar, você está ficando ‘gagá’? Pára com isso, amigo.
- Eu queria ter vivido mais.
- Vive agora, então. Dinheiro você tem, vontade parece que também.
- Eu não tenho mais é tempo, ele me deixou para trás mais uma vez.
- Deixa conversa, você tá novo ainda, sessenta e quatro é mesmo que ter vinte e quatro. Vai, faz o que quiser!
- Mas três meses é muito pouco para se fazer tudo isso.
- Do que você tá falando?
- Fui ao médico com a Roberta, fazer exames de rotina, e o doutor lá descobriu um tumor em meu cérebro, me deu três meses, mas que podia ser menos ou mais.
- Como assim? Você não sentia nada? Como só agora você descobriu?
- O doutor disse que ele cresceu muito rápido. Eu sentia dores de cabeça, mas achei que fossem normais, coisa da idade ou qualquer coisa menos grave.
- Isso não pode ser sério, meu amigo! Procura outros médicos, refaz os exames…
- O doutor Leonardo é o melhor, Mário, ele sabe o que faz.
- E agora? O que você pretende fazer?
- Comprar um esqueite.

sempre tou aqui, lendo teus textos. não me canso, são perfeitos demais. Todos! parabéns.
É assim que funciona,o tempo vai passar e isso é irrefutável..
só nos resta saber se vamos ser como Baltazar ou se iremos nos orgulhar do que não deixamos de fazer! ;]
Ótimo Jon!