6:46 AM

Ela chega calma e silenciosamente. Caminha cautelosamente sem sapatos com a ponta dos pés. Primeiro observa de longe, e sutilmente vai sentando na ponta da cama. Passa a mão nos cabelos os colocando para de trás da orelha direita. Suspende a mão sobre meu ombro e repousa sua mão sobre meu pescoço envolto pelo lençol. Inclina seu pescoço liso e fino próximo ao meu ouvido e sussurando diz: “bom dia”. Ela não precisa dizer mais nada.

mais nada.

brinquedo velho

vou me vender
pois já não cheiro a novo
e já estou perdendo a garantia

quem sabe eu me venda para alguém
que me trate muito bem
para quem eu seja o que ele sempre sonhou

pode ser que eu ainda sirva de reserva
se não me faltar uma peça
pode ser que eu até te faça bem

melhor assim,
antes que eu não tenha mais conserto
antes que não seja só mais um defeito
e seja esse o fim pra mim

guardanapos.

Hoje eu almoço só. E não é porque eu queria, um outro dia talvez eu até quisesse, mas hoje não. Eu queria um almoço à dois porque ele só seria um pretexto para ter um pouco de conversa que fosse capaz de romper o silêncio deste dia. Eu queria uma conversa amistosa, sem armas na mesa. Talvez um beijo de sobremesa, para uma refeição com sorrisos. Eu não sei, mas penso que quando se está em sincronia, explicitar não seja tão necessário assim.