Sebastião.

Era mais um fim de tarde em qualquer lugar. Um dia indiferente. Ouço alguém falar sobre o resultado de um pleito em uma fila na lotérica. Em uma praça ouvi alguém falar à alguém sobre um terceiro querido vindo de algum lugar distante, cujo o mesmo parecia fazer falta a elas. Em outro canto vejo alguém apontar para um motorista que ignorava a faixa de pedestres enquanto falava em seu celular em um carro o qual ele pensa ter mais valor do que a vida de um qualquer. Consegui ver pessoas simples, sem muito, mas com o suficiente para sorrir e desejar sinceramente uma boa tarde à um desconhecido. O caos e a serenidade coexistindo às 17h16min. Em frente ao museu, resistindo o quanto pode à rotação terrestre, tentava o pôr-do-Sol sobressair silenciosamente ao som de sirenes, conversas, motores, buzinas… pássaros. Somos bilhões de corações pulsantes desejando serem ouvidos. Somos almas encapsuladas em corpos desejando serem percebidas. Cada um, ao seu modo, buscando cativar um outro alguém, ou simplesmente à espera de empatia. Ver o céu inflamar dispersando todo o espectro de cores. Limiar da noite. Dois estranhos se cruzando pela rua. Alguém sente minha falta em casa? E por um instante me sinto só. Solto. Todas as pessoas que nunca irei conhecer durante a vida, o que faria cada uma delas enquanto eu parava por alguns instantes e sorria apenas por admirar um fim de tarde? Como explicar a incapacidade de conter um sorriso em um dia de cão? Ah, felicidade, não bate em minha porta. Senta na sala, ocupa o quarto no fim do corredor.

Um estranho nada estranho chega até mim, me aborta em uma calçada. Caminhava indo para lugar algum até que algumas palavras cortam o ar:

O moço parece preocupado… Vinha olhando para o chão… – Diz um novo amigo.
… Boa tarde, como vai o senhor? – paro me ofereço de ouvinte.
Vou indo, né?…
– Graças à Deus…
– Graças à Deus…
Amanhã é o aniversário de meu filho…
Sério? E aí, vai vê-lo? – tento demonstrar interesse.
Sim, mas claro! Ele é inteligente… Dá gosto de ver!… E o moço?… Parece estudioso…
– [risos] Sim, estudo, estudo.
– Faz faculdade? –
meu novo amigo demonstra interesse.
Sim, isso mesmo.
– Ah, não parece, mas eu também sou formado. Sou contador. –
diz meu amigo desconhecido, que guardava uma flanela laranja sobre o ombro enquanto ajeitava o boné.
– Nossa, que bom! E está aqui?! – digo surpreso, enquanto o olho novamente, prestando atenção ao seu olhar.
É moço, fiz umas escolhas erradas na vida. Deus me perdoou, eu sei, mas muita gente não. Minha família não… – diz ele baixando a cabeça, e continua – mas eu queria te falar o que eu queria dar de presente para meu filho amanhã.
Ah, diz: no que tá pensando? – pergunto, curioso.
Eu só queria comprar um mucilon, uma lata de leite e um pacote de açúcar… mas não consigo.
– Ah, mas o senhor não pode deixar de presentar seu filho…
– O senhor pode me ajudar, moço?
Após essa conversa, fomos caminhando até um hipermercado que tinha próximo, onde fomos metralhados por olhares confusos, enquanto ele me falava das razões por estar longe da família. Compramos os ‘presentes’ e nos despedimos com a alegria nítida e latejante no olhar desse novo amigo, Sebastião.
Sebastião me ensinou muito nessa meia-hora. Agora eu sei, meu dia não estava ruim. Eu nunca tive um dia ruim. Nunca tive. Nunca. Agora eu sei.

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