Anamnésia – Cartão Postal

“Eu fechei os olhos por não ter coragem de encarar, e tive medo de abrir e descobri que era apenas um sonho. Era você quem saia no meio da multidão, olhando para trás esperando por alguém, com algumas coisas nos braços, passou a mão no cabelo, sorriu para uma amiga e antes de ir olhou para todos os lados, saindo então dali. Você não me procurava, isto eu sei, mas eu devia ter aproveitado mais todo este tempo que você esteve ali, passando por mim nas horas dos dias (que foram muitos). Foi esta a ultima vez que te vi. É só um mês que te resta? O que você me diz sobre sair amanhã comigo em um passeio pelos pontos da cidade que ninguém te levou por não serem agitados, nem terem pessoas legais ou uma arquitetura bonita? Deixa-me tentar fazer com que leves boas recordações diferentes, um lado-b daqui, e quem sabe até te dê vontade de voltar. Ah, não me leve a mal, falo isso sem segundas intenções, só quero ser um alguém para quem você queira mandar um cartão postal com frases legais no verso. Sim, avisa também a eles que mandem mais noticias, e vê se não me esquece. Abraços, sentirei saudades.”

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Ciano

Pode ser até repetitivo, mas olhe bem para ela, seus olhos (verdes com azul-ciano), são lindos, e se transformam em ma espécie de poesia de cores, cores frias. Repare bem no olhar que ela traz, é um olhar belissimamente triste, que retoma uma bela melancolia que se esvaecesse em contos de um amor imperfeito. Como um comum negaria uma beleza assim? E para que tanta tristeza em recordar? Será que é do amor sofrer? Será o amor afinal? Sobre nada disso eu sei ou me arrisco a tentar decifrar, mas é isso que eu penso quando eu vejo aquele olhar.

Pra querer tentar

Pensar em tudo que se passou, e vê como tudo se escoou feito água de chuva, pode ser decepcionante ao olhar para trás. Tão decepcionante quanto acordar de um sonho bom é te ver com um novo alguém, e fingir ser feliz para me machucar. Quando você o beija no rosto próximo aos lábios como fazia comigo, quando sorri e sai por aí com ele. Pode ser que você seja feliz até, mas não há quem me faça acreditar que é com ele que você queria estar. Se estou errado ao menos me dê motivo para errar, mas não, por que você vem me perguntar quem é esta que está comigo? Que diferença isso lhe fará? Você tem medo de que eu consiga ser melhor sem você, tem medo que para sempre eu venha te esquecer, você tem medo de não caber mais em minhas rimas, você tem medo de se arrepender. Eu bem que tentei ressuscitar nós dois, eu bem que tentei se alguém para te fazer sentir alguém.

Londres – Parte I [LADO A]

A melhor de maneira de reconhecer seus reais amigos é vendo a falta que você faz para eles. Era assim que ele pensava, antes de sair à noite para algum lugar sem avisar para onde iria. Ele caminhava pelas ruas, vestindo uma camisa preta, uma calça jeans preta e um all-star branco bastante sujo. Sussurrava uma canção triste, mas lembrava em outra alegre, e lembrava também de uma terceira, “Hey, Jude!”, que dizia para ele transformar aquela canção triste numa melhor. Seus passos eram curtos e apressados, além das canções outros pensamentos perigosos cercavam teu pensamento. Ele ainda tentava saber para onde seus passos iriam dar, e tudo que ele trazia era o celular [caso precisasse de alguém para conversar], um pouco de dinheiro e uns papéis amassados e suados no bolso traseiro da calça. Ele pensava se ligava para ela para perguntar se podia encontrá-la para conversar, se aparecia de surpresa para ela ficar feliz, mas resolveu sentar num banco num canto distante de uma praça qualquer. Ali ficou por alguns minutos, tinha idéias de como se livrar de toda essa raiva que o domina, de como reconquistá-la, de como fazer para apaixonar-se por ela novamente com antigamente. Tudo que ele conseguiu foi apenas esquecer-se de tudo que pensava, esquecer-se do que te fez sair por algumas horas de casa. Tudo agora se esconde num canto de sua memória na qual sua vontade de ser feliz ao menos por um dia o impedirá de visitar outra hora. Agora tudo que ele mais queria ela ter um alguém ao seu lado para abraçar e chamar de amigo, que se sinta bem ao estar contigo. Ele quer falar com alguém que diga coisas divertidas, que entenda suas idéias loucas de uma utópica revolução interior. Na verdade, tudo que ele quer é apenas encontrar um lugar legal, tranqüilo e relaxante, que toque ao fundo Love-songs ao piano, com uma boa compania e bons sorrisos para compartilhar, enquanto lembra-se de um alguém não tão distante, de um alguém tão importante que ele sonha encontrar.

Corola [reeditado]

Não são apenas teus olhos apertados, nem tua voz doce. Não é apenas por tua sinceridade e serenidade. Assim como uma flor não é bonita se só tiver uma pétala, o que mais chama atenção em você é o conjunto de tudo isso. Acho que só por ser você, por ser esse nome, não importa quais olhos caberiam em você, que timbre traria tua voz. O que te torna especial para mim é só o fato de todas as qualidades que mais me atraem estarem reunidas na embalagem mais bela, o que me encantou. Quando a noite vem enfeitada com poucas estrelas é porque você não saiu para elas terem para quem brilhar. E quando a chuva que escorre nos telhados e lava as ruas é só para você passar. É por isso que o outono trás ao chão da janela e teu quarto as flores, para ficarem mais próximas para você tocá-las.  De uma forma estranha como o sol se põe mais cedo e rápido quando você não está aqui comigo, as ruas deste bairro ficam mais desertas, e as luzes amarelas amedrontam mais do que iluminam. É fato que nada disso acontece apenas por você, mas é assim que vejo passar o dia, pois para mim o dia gira em torno de ti. Não cabe em mim tanta ansiedade em querer te ver à noite. Você, aquele sorriso que sempre levo em mente comigo. Só para sentir teu abraço, e ouvir tua voz, olhar teus olhos e gravar tudo em minha cabeça, como uma película em fita que projeta um filme em preto e branco em 12 quadros por segundo… Uma espécie de cinema mudo em minha mente.

Junho

Unir planos sim, mas com calma meu bem. Não vamos falar daquilo que ainda não temos certeza, não vamos pensar no que seremos amanhã, não ouse em pensar que estou com você só para ocupar meu tempo. Com você eu não perco tempo, eu me perco do tempo, e sequer percebo que o céu hoje estava cinza. Mas eu tenho medo de te machucar, e por ter medo de te machucar é que sempre te machuco ao dizer que vou me afastar para te livrar deste risco. Você pode até tentar me convencer que está disposta a encarar isso sem medo de se machucar, com esperanças de sermos felizes, mas o meu carinho e cuidado por você é maior do que tua vontade de se arriscar, eu prezo pelo teu bem, assim terei sempre o teu sorriso (que é lindo), mesmo sendo proferido a outro alguém. Acho que o que eu ouvi outro dia pode estar certo, eu posso está apaixonado por uma imagem irreal de um ser perfeito, o tal que só aparece para mim quando olho para você. Segundo o mesmo, se após essa imagem deixar minha cabeça e esse sentimento ainda persistir, talvez nosso afeto possa vingar. Será que isso que sinto quando falo com você é só mais uma espécie de encanto e que logo vai passar? Será um amor de outono, que depois de certo tempo irá cair ao chão? Meu bem espero que não. Por que senão eu estaria perdendo meu tempo e desperdiçando o teu, assim um de nós poderia se perder no tempo [como uma vertigem], e o outro se prender ao tempo [vivendo do passado], e assim escrever as obras póstumas do nosso amor.

 

19 de Junho de 2008.

Casa. 23:42. ”Vai lá”, Tuttu Madre

 

Vaga-lumes e neons

Luzes e sons. Raios e trovões. O céu parecia querer desabar sobre nós. Estava ali, rodeado por estranhos. Tudo ainda estava calmo, a chuva que caia ainda era fria, mas por alguma razão (que eu insistia em esquecer, mas um amigo meu em tom de ironia insistia em lembrar), minhas mãos suavam. Fazia frio, tanto lá fora, quanto lá dentro do local, quanto dentro de mim. O horário combinado, 18h30, mas você avisou que iria se atrasar.

A celebração começara, eu já havia esquecido o real motivo de estar ali, e só pensava: “será que ela virá mesmo com essa chuva lá fora (um pouco mais forte agora)? Ainda suando em desassossego eu tentava me concentrar, porem, meu amigo insistia em me lembrar: “Será que agora é ela? Chegou um carro lá fora…”. Na verdade ele parecia mais ansioso do que eu mesmo. Esqueci um pouco e nos falsos alarmes de meu amigo (“Ela chegou, olhe”), eu nem olhava mais. Não demorou muito e desta vez ele falava mais sério: “Olhe discretamente para a direita, atrás de você”. Você vestia preto em cabelos, blusa, pulseira e olhar. Eu vestia cinza, jeans e all-star (branco).

Eu, com toda aquela ansiedade que havia se instalado em mim, não consegui olhar. Sem que ninguém percebesse eu te olhei no instante em que você olhava para mim também. Lembro-me do que pensava naquela hora, eu lembrava das palavras que você me dissera mais cedo: “Você acha que o que além de você me leva até ali?”. Confesso não me conter de felicidade. Naquele instante que os olhares se encontraram, automática-simultaneamente  viramos nossos rostos, olhando fixamente para frente. A partir deste momento as palavras que eu ouvia pareciam ser línguas estranhas aos meus ouvidos, pois eu não parava de pensar no que fazer, no que dizer para você.

A reunião chega ao fim. “E agora?”, pensei. Fui para a saída acompanhado de meu amigo, esperei você e suas duas amigas virem na nossa direção. Meu amigo e suas amigas pareciam entender bem as palavras que nossos corpos naquele abraço falaram. Eles saíram, um em cada direção e nos deixaram a sós.

– “Oi” – eu disse depois do abraço.

– “Oi” – você respondeu sorrindo.

Então um silencio eterno de dois segundos me fez tremer mais do que os raios e trovoes da chuva (agora realmente forte), lá fora. Tentei agir naturalmente, embora meus dedos frios e trêmulos me entregassem. Perguntei se iríamos para casa na chuva (agora um pouco fina), ou se esperávamos passar. Você propôs que fossemos antes que voltasse a chover novamente mais forte. Assim fomos nós, e nossos amigos, por entre raios, relâmpagos, trovoes e chuva fria-fina, entre a noite e ruas desertas.

Agora a chuva aumentara, paramos embaixo da primeira marquise que achamos. Mais uma vez, nossos amigos se afastaram nos deixando a sós. Aos poucos meus passos foram encontrando os seus passos, meus braços os seus braços, meu olhar o seu olhar. O nosso silêncio, os carros, o ultimo suspiro e então fazia-se o inevitável, quando meus lábios tocaram seus lábios. Depois do beijo, cegamo-nos para o resto da avenida, nos olhávamos (ainda abraçados), e te beijei suave como se beijasse uma flor. Como já era tarde, caminhamos ate a esquina onde nos despediríamos com outro beijo sob a fria chuva. Nossos dedos se desenlaçaram, nossos olhares se desencontraram e eu segui por entre ruas e becos desertos, me molhando no sereno, até chegar em casa e permanecer contigo em um sonho bom.

 

 

Mossoró, 22 de março de 2008

*Ver posts da mesma data (período) para entender melhor.