A primeira estrela

– Está uma noite linda hoje, não, meu jovem? – perguntou-me um senhor com os cabelos descoloridos pelo o tempo, com marcas dos sorrisos e choros em teu rosto e com as mãos calejadas do trabalho e um tom cansado na voz. Ele era gordo e de estatura mediana.
– Sim, sim! Está sim senhor. – respondi, um tanto espantado, é verdade. Não era comum tal senhor conversar com alguém, e eu penso que eu seria a última pessoa com quem ele iria falar. Nunca haviamos nos falado antes.
– Posso sentar aqui contigo enquanto meu filho vem me buscar?
– Claro, fique a vontade, seu Paulo.
Seu nome eu lembrara de uma das conversas onde minha mãe falava de tal senhor que morava à frente de nossa casa, e do sucesso profissional de teus filhos e de um outro que, diferente dos demais, se perdeu da vida na bebida, junto com a esposa e os três filhos.
– Como andam as coisas? Você é neto da Dona Olívia, certo?
– Sim sou sim. As coisas andam bem. E com o senhor?
– É, meu filho, já vivi tanta coisa que o que vivo hoje é tedioso. Passo o dia em casa, assistindo a droga de minha TV. Sabe, eu gostava de quando eu era jovem… Ah, como eu gostava!
– É, eu ainda sou novo, mas já me considero velho. Porém, penso ainda ter tempo suficiente para fazer as coisas que gosto…
– Eu também pensava assim, quando tinha mais ou menos sua idade. Porém, vai te chegar um tempo onde o mundo vai caminhar mais rápido que seus passos, e, se isso já acontece naturalmente, irá ficar mais perceptível, a cada dia que se passa. As semanas vão ser engolidas como se fossem atraídas para o interior de um buraco negro. Então, garoto, você já irá ter filhos, netos, e tudo mais, menos cabelos e um rosto bonito.

Após ele me falar isso, eu ri um pouco, educadamente, tentando evitar que ele percebesse. Ele falava sério, com uma espécie de revolta cuspida nas palavras, e ele continuou…

– Olha, eu tenho dez filhos. Oito deles são formados. Os outros dois… ah, os outros dois… Um é viúvo, começou a trabalhar cedo e não concluiu os estudos. Inventou de casar cedo, e teve três filhos. Depois que a mulher dele morreu num acidente de carro, ele ficou dependente de álcool. O outro filho, na verdade uma filha, nunca quis nada com a vida. Fazem dois anos que não a vejo e que não tenho notícias dela. Sabe, doe o peito isso. Tenha uma coisa muito fixa na tua mente: seus amigos vão mudar, vão te trocar por qualquer promessa de futuro que lhes caiba no bolso; amores?! Ah, esse você terá muitos mais, isso é, se é que você já teve! Agora, meu filho, pais são pais a vida toda. E filhos sempre serão filhos, a vida inteira. Mesmo que os pais um dia morram, e morrerão, mesmo que os filhos morram antes, e talvez morram, mas pais sempre serão pais, e filhos sempre serão filhos.

Ele continuava sério, e mas não me encontrava o olhar. Ele olhava fixamente para a rua, enquanto estavamos sentados na calçada, na noite agora mais escura. E, outra vez, continuou:

– Aprenda a perdoar, a não guardar mágoas. Colecione sonhos e troque com os outros, como se fossem figurinhas. O que é a vida se não um grande álbum de figurinhas e fotografias?! Ame, e não se arrependa jamais daquilo que fizer por amor. Nem antes nem depois de tê-lo feito. Ame na frequência exata para que os dois corações pulsem o mesmo sentimento. Entenda e guarde isso: o tempo é curto. Sem pre é, não importa o quanto o tenha.

O senhor se levantou, sem que eu conseguisse dizer mais nenhuma palavra, e falou:

– Não sei se essa nossa conversa vai lhe servir um dia, mas quem sabe você agora não tem um bom motivo para lembrar de mim, além daquela imagem de ‘o senhor sentado na calçada em frente’, não? Chegou meu filho, tenho que ir. Até mais! Fica com Deus, e manda lembranças para tua avó.

Com um aceno rápido e discreto, o senhor se levantou e foi caminhando lentamente até o carro do teu filho, que me olhou e acenou também.

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Alameda Senhor do Bom Fim.

Ela corre na avenida. Corre contra o tempo, contra a gravidade e inércia. Comenta a gravidade dos fatos e gestos. Lembra-se do início, planeja o meio e se esquece de ter um fim. É uma alameda. A vida passando na avenida. É ela e seus óculos escuros, nas sirenes da viela, no cheiro de gasolina. É ela e a cidade. O contraste do que há de mais belo e sereno, num papel de parede acizentado da cidade que cresce. Ela é o vermelho-encarnado, sobrepondo-se ao que há de mais sagrado. É ela desmintindo a física, a lógica e todas as crenças. Ela é o que o mundo quer. Ela quer o que ninguém mais quer. Ela é assim: o melhor frasco e o melhor perfume. Ela é o azul do céu e todos seus nuances. Para definí-la são tantas as palavras, que no final não me resta nenhuma.