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Ontem.

Porque você veio ontem, hoje o dia pareceu ordinário. Porque você me visitou, pareceu trazer contigo a vida que faltava por aqui. Com você os sorrisos são fáceis, as horas suaves, os dias melhores. Você veio ontem e me lembrou de minhas razões. Ontem você veio, e todos os outros dias serão só mais outros dias sem você.

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meu pastor.

Eu vim aqui quando eu era criança. Me lembro do cheiro dos móveis em madeira escura, do cheiro do hortelã que vem do quintal e do chiar da panela ao cozinhar o feijão. Pra mim não faz muito tempo, mas me dizem que já faz alguns anos. De alguma forma muito estranha parece que o lugar encolheu, mas parece acolher muito mais, desde a última vez. Eu gosto do sono tranquilo dos gatos nas poltronas, no beiral da janela, na estante e sobre a tv. Lembro que eu gostava muito mais da manhã e sentar na calçada. Conversa boa é coisa rara! Você me disse guardar as cartas que um dia eu te escrevi, dizendo que um dia iria morar contigo e, olha só o destino, continuo assim. Parece que teu abraço foi pensado e moldado para caber todos os formatos de mim. E teu colo, antídoto pra qualquer choro que ousasse se anunciar. Me lembro como se fosse hoje, nós na calçada competindo para ver quem primeiro veria a primeira estrela nascer. Pois é, eu me lembro também. Sinceramente não sei, como ainda se estranha eu dizer que daqui eu não quero sair. As melhores lembranças que eu guardo são contigo, naquele lugar, nosso refugio e abrigo. Tudo de pouco que tivestes, muito fizestes por mim. No meu peito é o teu sangue que pulsa. Nada vai tirar você de mim.

19:vinte e quatro.

por favor se cuide. não levante muito rápido ao acordar e nem pise com o pé no chão frio. não dê chance pro azar. não ponha muita pasta para escovar os dentes e não prenda tão forte o seu cabelo. cuidado ao cortar o pão, mastigue bem antes de engolir e assopre o café antes de beber. quando sair pra trabalhar, olhe se não há ninguém suspeito. olhe para os dois lados antes de atravessar. não tome o ônibus errado e não esquece onde tem que parar. por favor, verifique se no seu almoço não tem nada a que você seja alérgico e a bebida só depois que terminar. quando quiser voltar pra casa, pode me ligar pra te buscar. não ouça a estranhos.

por favor,

cuidado.

hoje mais do que nunca é bom te ter por perto ou do outro lado da linha. que linha?

já que você um dia nasceu em mim, que vivas em mim. pois se um dia te quis, que em todos os outros eu te faça feliz.

brasília.

Ando pouco. Me iludo pensando saber o caminho. Esses dias tenho tido muitos deja vu. Talvez sejam as árvores por todos os lados, talvez a chuva que apareceu sem convite, expressões sem sentido ou, simplesmente, atravessar na faixa de segurança. Ou talvez esse pôr-do-sol, flamejante… Eu n/b-em sei. Eu gostava daquelas fotos da janela. Da calmaria dali, do subsolo. De ter a tv como relógio e um filme como desculpa. Tanto que vem, tão pouco que lembro, das partes que não lembro, são as que gosto mais. Talk show de madrugada, talvez nunca mais. Pode ser que sejam universos paralelos, longe se medir com distância, perto se medir em memórias. …Vezes pareço querer esquecer. …Vezes, eu sei, sinto voltar. Saudade sempre tem, coragem preciso ir no supermercado comprar. Não penso mais tanto assim. Não tenho canções desde o último verão. Parece que faz frio aí. As vezes parece que frio me sou. Desculpa se não faz sentido. Sempre parece que não fez sentido. Mas sentido teve em ter sido. Queria que fosse domingo, queria que fosse de novo. Queria que fosse por hoje vivo de novo. 

Binário

Binario
Tenho muitos livros no armario
Ha quem tenha segredos guardados
Redesespero diario

Binario
Tudo dividido, todos separados
No mundo, nas casas, nos quartos
Ninguem ao seu lado

Binario
Rotular e ou ser Rotulado
Eis a questao
Ou estou errado

Zeros e uns
Dia e noite
Aquela, aquele
O moço, o vilão
Café, chimarrão
Ciência, religião

Binário
Necessidade de exatidão
A resposta que vale um milhão
A chave para a nossa solidão

Binário
Tudo que é conhecido e o que é especulado
Conhecer os humanos observando os ratos
Tudo ao contrário

Binário
Todo o vazio, todo esse espaço
No universo, nas camas, nos abraços
O mundo é tão complicado

Que bom que você voltou. Sinceramente eu também senti saudades. Cada dia mais louco, mais velho, mais surdo e mais e mais sonhos… Alice moderninha! Nunca pensei te ver assim. Minguando, contando gotas, tão perdido. Velhos acordes não fazem mais sentido, né?… Sei como é. E por falar em canções, você não sabe mais nem o que ouvir. De escrever nem se fala: perdeu a mão faz tempo, nem eu te aguento mais. Isso, tenta achar que é você mudou demais. As únicas coisas que você jurou amar fazer parecem te provocarem ainda mais. É você que está sempre em busca do equilíbrio?… Que equilíbrio! Sua mãe já me contou que você sempre deu trabalho pra dormir, já você me diz que ser o último a ir te assusta… Hoje você nem dorme mais. Porque o silêncio dessa vez? E o coração, cadê? Contar os dias para quê? A inércia chegou de vez? Porque eu pareço e provocar tanto? Parece que seus zeros e uns nem são tão mágicos assim.

Cotidiano

Neblina. Numa estrada onde não se consegue ver além de poucos metros os passos são mais lentos. Movimentos calculados. Previsões são evanescentes. Se dissolvem no ar. Em busca de sentimentos indeléveis, se contentar com o acaso. Conversa fiada. Talk show na madrugada. Canções aleatórias. Acordes dissonantes. Numa janela embasada, deixar um recado que não encontrará ninguém. Um bilhete na geladeira. A lista de compras. As sobras de jantar na mesa. Ninguém na sala. A luz de seu quarto, pela janela, está acesa.