Ela caminha na avenida, como nos filmes que aqui já citei. Ela controla o vento e ordena à chuva que só caia quando ela passar. Então ela passa, o tempo se transforma, e a chuva que o dia todo a esperou cai descontroladamente. Ela corre como criança banhada na chuva. Ela ri, se diverte e me convence a entrar na dança. Com passos errados, com pressa e sem um pingo de tristeza, eu não resisto, danço sua dança, jogo seu jogo. E se a roupa molhou, isso não importa. Se os livros e documentos se perderam, dane-se! E se o sorriso eu vi nascer daquele rosto? Prefiro dizer que eu ganhei o dia perdendo o juízo. É quase como uma promessa cumprida, é um gozo infinito.

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O outro.

Eu venho aqui de novo pra falar do tempo. Com uma velha camiseta usada, uma calça desbotada e um tênis desamarrado eu venho aqui pra dizer que mudei. Ver as antigas cartas e as canções mais novas é visitar e cumprimentar vários ‘eu’ no tempo. Cada ‘eu’ com suas roupas, cortes de cabelo, cores e estilos de sapatos. Das músicas que já ouvi nesse tempo todo eu nem conto! Esse meu quarto aberto ao público me põe num palco, onde eu invento a história, toco a trilha sonora, canto meu coração pelo avesso e danço na minha própria dança. Esse, aqui e agora, é meu espelho mais moderno, que ao invés de uma imagem em tempo real, me mostra o gradiente de personalidades e universos que fui.
Esse é mais um bilhete, escrito por meu próprio punho, pregado com um imã na geladeira.

Eu vou e volto o tempo todo.